sábado, 20 de dezembro de 2008

Não há dinheiro, não há palhaços!



Quando eu era pequenina, todos os anos pelo Natal, a minha mãe levava-me ao circo. Eu adorava.

Conheço muitas pessoas que não gostam, sobretudo por causa das condições inadequadas em que se diz viverem os animais. Também me incomoda, coisa que com 5 anos não sabia, no entanto a verdade é que eu fiquei com uma imagem prazenteira porque adorava aquele espectáculo apesar do mal sentada que ficava naqueles bancos de madeira corridos e com pregos mal aplicados em tábuas tortas e apesar do frio no interior do recinto (é de relembrar que eu gosto de calor ao ponto de tomar sempre duche a ferver mesmo que estejam 40 graus lá fora e 90% de humidade, condições ideais para o meu estado mais esfuziante de alegria sem que que a tensão arterial se esfume).
Eu gostava mesmo do circo.
Um dos meus livros predilectos era "Anita no circo", sobretudo o modelito de ilusionista que a protagonista usava no número de magia.
A Mathilde sempre gostou desse livro e pedia-o muitas vezes, quase mais do que o "Anita mamã" ou o "Anita vai às compras", os outros que ocuparam durante meses o pódio da (minha/depois sua/agora delas) colecção Anita.

Postos estes requisitos, fomos ao circo há duas semanas, ao Cardinali.
Deparei-me com bastantes mudanças.

Para começar o circo já não é apenas uma tenda onde decorre um espectáculo mas também um espaço onde há pipocas, algodão doce, minis e bifanas, carrinhos de choque, carrocéis e mini-montanhas russas, tudo debaixo do mesmo tecto.

Depois já não há bancos de madeira, nem corridos nem sem ser corridos.
O perímetro da tenda aumentou gigantescamente e cabem sentadas 3 mil pessoas. Não percebi como é que muitas delas vêem o espectáculo sem ficarem com um valente torcicolo já que bastantes lugares, semelhantes aos dos estádios de futebol, não estão todos voltados para o centro onde os artistas se apresentam, estão de lado. São assentos corridos, deve ser uma alteração no sentido da modernidade como remniscência dos de pau, só que, como fixos ao chão, continuam em linha recta e nos ângulos posteriores do recinto estão virados para outros assentos e não para o palco. Os espectadores ou se sentam na diagonal ou viram o pescoço 90º, é à escolha.

O circo agora é aquecido, pelo menos mais que dantes.

Os números sucedem-se a uma velocidade vertiginosa, há muita variedade, no entanto a maior parte é tão rápida que fiquei com a impressão "Mas é só isto?". Por exemplo os trapezistas, que eu venerava em pequena, que queria saber voar como eles e cair elegantemente na rede de segurança, deram 4 voltinhas e pronto. Isto para não falar que com os 3 atletas que balançavam pelos ares, subiu também uma senhora que ficou apenas lá em cima, suponho que como enfeite. Que é feito das meninas que sabiam fazer mortais e pinotes como nos genéricos do 007?

Os palhaços, já de tenríssima idade, entraram com um "touro" com 2 pares de pernas humanas cujo dorso de tecido tinha buracos de tão gasto.

Um outro entertainer, muito dinâmico e simpático, executou dois números com espectadores escolhidos ao acaso por entre um público escasso, a casa estava quase às moscas. Dois números feitos classicamente nos espectáculos amadores do Club Med. Será o Club Med que plagiou? Não me parece mas não garanto nada, podem ser números de circo copiados, ou podem ser números do Club adaptados. No entanto surpreenderam-me, não são assim tão fantásticos, penso, que não pudessem ser substituídos por outros desconhecidos.

Um mágico com cães acrobatas fez as delícias das meninas, cãezinhos quase todos já entradotes mas que provaram estar ali literalmente para as curvas, enquanto que um outro mágico apresentou os dois únicos animais selvagens, um tigre adulto e um bebé, um deles branco, já não sei qual porque o número foi francamente mau e com uns flops pelo meio.

Um ponto agradável é que já não há quase nenhuns animais no circo. Mas, apesar de saber que assim, ao menos, a problemática da situação dos bichos não se coloca,tive uma certa nostalgia ao lembrar-me dos elefantes e dos ursos e dos leões e até do tanque com tubarões que tão anunciado foi há décadas e que eu me lembro de ver e não perceber grande coisa do número.

Houve também alguma, chamemos-lhe, confusão na apresentação dos artistas. "Um número de cortar a respiração com ... (nome que eu não conseguia perceber, o som era mauzito), que nos chega do México!", "Senhoras e senhores, meninas e meninos, o grande ... (outro nome diferente, imperceptível) vindo da Austrália!" e, vendo bem, ou mal, bastava ver, o artista era o mesmo.

Achei muita graça a umas acrobatas que se penduravam uma na outra pelo cabelo e a um jovem que para além de fazer maravilhas acrobáticas fez as delícias da Manon que comentou, não sei quantas vezes, "Ele está de cabeça para baixo! Olha mamã! Em cima das mãos!" e nenhuma graça ao número das motas, uma barulheira infernal para mostrar uns cavalinhos que certamente agradam aos rapazes, ou não.

Para terminar o circo já não é barato. O circo é caríssimo! É caso para dizer, nesta altura de crise, invertendo a expressão "Só se há dinheiro, é que há palhaços!"

Feitas as contas, que me desculpem os que abominam este espectáculo, pois continuo a deleitar-me com a recordação remota do prazer que era ir ao circo no natal com a minha mãe e que me desculpem os que adoram, pois fiquei com a imagem actual de uma certa decadência que me entristeceu até.

Saí de lá desconsolada pessoalmente, o papá também, e satisfeitos "materna e parternamente", a Mathilde e a Manon gostaram, de tudo menos das motas :) e assim sendo, apesar do balúrdio que consideramos ter pago e que jurámos não repetir enquanto nos lembrarmos, o balanço foi positivo tendo em conta que o objectivo era mostrar-lhes o que era aquele mundo que aparecia no livro da Anita e aquele que conhecíamos da nossa infância. Já está, ponto!

3 comentários:

Mamã e Tesourinhos disse...

Hum... Fomos ver o mesmo circo???
Concordo contigo: os números de circo são muito curtos. E a magia que eu sentia quando era pequenina não surgiu.
Fica bem.
Bjs.

Olinda Dinis disse...

Eu não gosto do circo e nem é só pelos animais é por tudo...
Até tenho bilhetes gratis para ir a um que está perto do parque das nações(no mesmo sitio do SBSR) e não vou...

Mas essa magia que não sentiste/viste não será por seres já adulta?

Beijinho

Anónimo disse...

Olá querida mamã, eu gostaria de, para o ano, levar a Joana ao circo mas já tenho ouvido e lido que o circo está a perder um pouco a sua magia...
Beijinhos, Sofia,Pedro e Joana