quarta-feira, 11 de julho de 2007

Carpe diem

Há o mundo. Há os adultos. Há o mundo dos adultos.

Há os impostos, o IRS, o IRC, o IVA, o IMI, o PEC, o IMT, o Imposto de Circulação, o Imposto Municipal sobre Veículos, a Contribuição Autárquica, o Imposto de Selo, mais alguns que cabem na categoria "saco" chamada Outros Impostos e ainda um que nunca paguei mas nem me espantaria se chegasse uma cartinha das Finanças a informar da obrigação do pagamento do Imposto de Camionagem, há pois as finanças, a prestação da casa, as contas para pagar, a da água, a da electricidade, a do gás, a do telefone, as modernices da internet e da TV por cabo, há o trabalho, há o trabalho, há sempre muito trabalho, há o trabalho fora de casa e o trabalho dentro de casa, há o cansaço, há as intolerâncias inerentes à raça humana, as agressões específicas da humanidade, o trânsito, as perdas materiais, as perdas profissionais, as perdas sociais, as perdas humanas, as doenças, os problemas, os nossos, os dos nossos mais queridos, os dos amigos muito próximos, dos menos próximos e os dos amigos dos amigos muito afastados, a mesquinhez típica do homem, e da mulher, há a injustiça, o malentendido, há o desencontro, o ressentimento, há muito aborrecimento no mundo dos adultos...

E há aquele momento em que a Manon tenta subir para o meu colo, e nele se senta, uma perna para cada lado, os braços num abraço que parece dar a volta ao meu corpo de tão grande que ela o abre, para depois descontrair e encostar a cabeça ao meu peito, a pele doce encontra a minha, os caracóis dourados fazem-me cócegas, e ela ali fica, e eu ali fico, e ela suspira, e eu suspiro, eu feliz, eu a crê-la feliz, ela feliz creio...

E há aquele momento em que a Mathilde me pede para me deitar ao pé dela e encosta a cabeça à minha, ali muito pertinho, as respirações misturadas, fecha os olhos e faz-me festinhas na cara e no cabelo com muito jeitinho, e eu faço-lhe festinhas na cara e no cabelo com muito jeitinho, e ela diz, baixinho, "Gosto tanto de ti mamã, minha mamã..."...

Há aqueles momentos, a maravilha da vida, o encanto e a preciosidade da vida, não há mais nada, não é preciso, é absoluto, é puro, o êxtase do mundo das crianças.

Eu moro no mundo dos adultos e vivo no mundo das crianças, é o que me vale, foi o que sempre me valeu, não há imposto que atrapalhe quando o mimo me enche e preenche e extravasa de felicidade.

6 comentários:

Sara disse...

É... é isso tudo. Há essas porcarias todas que nos angustiam, nos fazem perder a cabeça, nos levam a calma e a sanidade mental. Mas depois há os filhos com todo o carinho que nos compensa as perdas todas. É um mundo bonito, o mundo deles onde nos deixam entrar para sermos felizes :)

Eunice disse...

É principalmente reconfortante perceber a verdadeira expressão "doce inconsciência" no olhar de uma crianças. Pudessemos ser para sempre assim...

Cláudia disse...

E o que eu adoro o mundo das crianças...
Tanta pressa que tive em crescer, e agora desejo tanto essa felicidade destravada das crianças.

borrowing me disse...

não há nada melhor
que nos deixe mais felizes
que nos preencha mais
é o melhor do mundo!

OD disse...

Estou com umas lagrimas a correr pela cara, que lindas palavras, Maria, que felicidade.
Muitos beijinhos para todos.
Olinda

Liliana disse...

Isso é tão bom Maria.
Que ternura!

Beijos