terça-feira, 24 de abril de 2007

Acasos em nome de Deus

Os pais, na generalidade, tentam sempre, ou quase sempre, ou sempre que possível,dar o que lhes parece o melhor para os filhos, o melhor leite, a melhor papa, as melhores bolachas, a melhor escova de dentes, o melhor creme para o rabinho, a melhor escola, os melhores valores, o melhor que os pais sabem e podem.

Eu sou católica, nada praticante no que ao ritual semanal, vulgo missa, diz respeito, ou outro de menor frequência como a confissão, já o fui, dei todos os passos desde o Baptismo à Confirmação passando pela Comunhão e Profissão de Fé, já se passou muito tempo desde que o deixei de ser, zango-me muitas vezes com a Igreja dos homens, surpreendo-me com o que me parece hipócrita e pouco adequado a uma humanidade depois de cristo há 2007 anos, nada pára a modernidade, apenas crenças humanas em valores ditos divinos, como se Deus nos tivesse inventado com um corpo para nos castrar a vida toda e dar-nos cabo da alma com tanta culpabilidade, enfim, escolhas.

Acredito em Deus, acredito que Deus tem muitos nomes, Deus, Alá, Cristo, Cosmos, Energia, Unidade, Eternidade, Causalidade, etc, etc, e que há apenas pessoas que têm dificuldade com alguns dos nomes, é só isso, toda a gente acredita em Deus de alguma maneira, porque a espiritualidade e a transcendência está em tudo, nas coisas mais pequeninas e aparentemente simples, aparentemente insignificantes do quotidiano, e todos temos quotidiano e coisas visíveis e invisíveis, exteriores e interiores.

Acredito que há gestos simbólicos que são bonitos e que representam essa crença em algo de superior, de belo, de organizador, de positivo e que, seguramente, mal não fazem.
Acredito em Deus e como católica que sou, apesar de praticar de forma pessoal e intransmissível, acredito que o melhor para as minhas filhas, para além do melhor leite e da melhor escola, é baptizá-las, e baptizei, eu não que eu não posso, um padre absolutamente maravilhoso, o Padre Paulino.

A minha mãe guardou o meu vestido de Baptismo, impecavelmente conservado e trouxe-mo quando a Mathilde nasceu.
Eu fui baptizada com 1 ano. Sempre me disseram que eu era uma bebé bem redonda e anafadinha e que ao ano já era bastante crescidota. Eu olhava para o vestido e achava-o grande mas, à medida que a Mathilde ia crescendo e se aproximava a data do Baptismo, em Julho de 2004, tinha ela 3 meses e dias, parecia-me que talvez a fralda e um bodyzito interior o enchessem um bocadito e ficasse bem.
Uma semana antes, resolvi vesti-la para garantir que não era um tremendo disparate e, surpreendentemente, estava impecável. Ora a criança parecia-nos crescida mas em 33 anos as gerações não aumentaram ao ponto dos bebés de 3 meses de 2004 terem o tamanho dos bebés de 1 ano de 1971!
Lavei-o e, quando fui a passá-lo a ferro, descobri que ele estava cosido por dentro como se alguém o tivesse apertado, intrigou-me e contei à minha mãe:
- Ó (não é gralha, é mesmo mã)!, o vestido está óptimo, o que é esquisito, ela só tem 3 meses e eu tinha 1 ano... parece que alguém o encolheu, está costurado por dentro.
- ... uhm... está?... Ah! Já sei! Acho que foi a tua avó. Tu pediste-lhe que ela te arranjasse o vestido para as bonecas e ela arranjou.

Olha se eu tivesse resolvido esperar até ao ano para a baptizar, lá se ia a hipótese de lhe servir, bendito acaso, isto foi... Deus :) (Mathilde - Julho/2004)

Quando a Manon chegou, decidiu-se logo que seria em Julho, com o mesmo vestido e, sem que nos dessemos conta, o Baptismo foi um dia depois do da Mathilde, mais um acaso Divino. (Manon - Julho/2006)

Há um jornal semanal distribuído nos cafés, o Coffee News, que tem uma secção intitulada Ditos Bem Ditos. Há duas semanas, um dos ditos Ditos dizia "A causalidade é talvez o pseudónimo de Deus quando não quer assinar" - Anatole France

Vou tentar guardar este vestido tal como a minha mãe mo guardou, nunca se sabe o que a causalidade nos trará.

3 comentários:

Sara Jofre disse...

E foto tua com o mesmo vestidinho, não se arranja? ;)

Joaquim Varela disse...

Eu peço imensa desculpa de me intrometer, e nem sequer é par gatas e tal, mas eu de todo não consigo acreditar que haja um Deus.

Possivelmente tornava a minha vida muito mais fácil, mas é-me de todo impossível acreditar na existência de um Ente Superior. O máximo onde vou é: "Não acreditar num Deus, é um Deus também". E mesmo assim não é assim às boas.

Abraceijos para todómundo e tal

Joaquim Varela disse...

em vez de "par gatas", deveria estar "pelas garotas". Não sei porque razão saíu este disparate...