sexta-feira, 17 de novembro de 2006

3 picas e dois sapatos

Ontem foi fim de tarde de vacinas, 3 (a conta que Deus fez e que eu gostaria de ter desfeito ontem, ao fim da tarde), duas coxas e um braço, risos e sorrisos na sala de espera, risos e sorrisos no catre, pedalanço excitado-Volta a Portugal-Tour de France-tudo junto e lá se descalça mais uma vez os sapatos, mais risos e sorrisos, sapatos para a boca, claro está, espanto à primeira picadela e ao fim da segunda já não havia beijinho que consolasse e ainda faltava mais uma.

Saíu encostada a mim em soluços e grossas lágrimas e demorou muito mais tempo a voltar ao seu sorriso permanente do que a irmã em circunstâncias semelhantes+uma (4 picas), há 2 anos

É nestes momento que me dou conta da minha necessidade imperiosa de poupar todo e qualquer sofrimento aos meus amores.

Uma vacina, uma necessidade que já nem é sinónimo de modernidade, Pasteur, um dinossauro da saúde perpetuamente recordado como o "inventor" de um bem supremo, a prevenção da doença, médica sou, relativamente salvaguardada das incapacidades de lidar com "estes males necessários", compreensiva de um bem indispensável e, no entanto, o que eu não teria dado para que não tivesse doído nada à Manon, ontem, fim de tarde de 3 picas, duas coxas e um braço.

E o que mais me incomodou, enquanto a segurava contra mim e a tentava consolar, foi a expressão assustada com que ela olhou para a enfermeira antes da última vacina.

Minha Manonzinha, se eu puder, tu aprenderás que o medo serve para muito pouco nesta vida, e que há picas que doem só na altura, não há que receá-las, fazem parte, e servem para crescermos, saudáveis.
Se eu puder, e se tu quiseres, ensino-te isso para tu não te assustares quando não vale a pena, e soluçares à tua vontade sabendo que depois da tempestade vem sempre a bonança e voltares ao teu sorriso permanente.
E que eu estou sempre aqui, para te consolar.
E, já agora, ensino-te a calçar os sapatos porque em matéria de descalçar tu já nasceste ensinada.

1 comentário:

MS disse...

Sempre a vontade de proteger aqueles seres tão pequenos daquilo que sendo simples, os faz sentir tão mal. Mas é assim, aprendendo a viver com o medo, enquanto a mão que nos conforta segura a nossa.

beijoka***
Monika